quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Lápis.

As arvores do jardim interno estavam bem próximas das janelas. Por entre as sendas de suas copas, os raios do sol juntamente com o sopro da manhã, iluminavam todo o nosso interior. Os elementos naturais que transpunham aquela espécie de portal exigiam uma certa sensibilidade para percebe-los.

O dia iniciava como todos os outros, a sala de aula aos poucos era preenchida com seus ocupantes diários, cada um se posicionando como de costume. Mas algo estava para acontecer de forma significativa ao meu lado. Aquele colega que pouco recebia atenção, começou um pequeno ritual: abriu sua mochila e tirou seu caderno de folhas brancas, depois seu estojo, com todo cuidado guardou o restante de suas coisas embaixo de sua carteira, se voltou para o estojo, de forma organizada, tirou o apontador, o estilete e o Lápis.

Aquele Lápis; me surpreendi, parecia um lápis de pedreiro, era rústico, parecia desajeitado, era grande, com uma ponta larga que certamente não facilitava a escrita, com certeza após alguns minutos segurando-o qualquer um se cansaria, rústico, Tosco. Deveria ser manuseado somente por pessoas acostumadas a talhadeira e marreta.

Olhei para o colega e fiquei me questionando: o que leva uma pessoa a ter um Lápis como aquele? Com tantas opções de modelos de canetas e lapiseiras, elegeu justamente algo tão Tosco, como pode?

Sua mesa estava organizada, estilete do lado da borracha na parte superior e o caderno-com-folhas-brancas-sem-pauta - brancas como a neve -, no centro da carteira. Parecia estar munido para registrar qualquer coisa, dava a impressão que era alto-suficiente para não deixar nada, absolutamente nada passar sem o devido registro.

Como não poderia deixar de ser, estes acontecimentos (que nos detemos com espanto), parecerem sempre fazer parte de um sistema que não temos controle, tive por força das circunstancias que alterar o meu caminho de volta para casa, e eis que passei em frente de uma loja especializada em artigos de artes visuais. Algo gritou para mim, quando me voltei ele estava no canto inferior da vitrine, era o Lápis. Novamente me chama a atenção.

Não me lembro de ter entrado na loja e nem muito menos de como cheguei até aquela mesa com uma folha branca em minha frente, aguardando o vendedor traze-lo.

Agora ele estava sobre a mesa dentro de uma caixa, parecia ter vida própria, o Tosco, o Lápis-Tosco.

Mal pude acreditar quando o tirei da caixa, era mais leve que minha lapiseira, praticamente reclinou-se em minha mão, antes de libera-lo na folha branca, admirei sua presença, sua força, sua energia, parecia ter personalidade própria, de fato era autentico.

Ele deslizou na folha branca, seu risco era preciso, fino, na medida que toda a escrita deve ter, era inspirador, macio, ele não parava na folha branca, estava à vontade em seu território e me convidava incessantemente a acompanha-lo, parecia me dizer – não tenha medo vou leva-lo a lugares que nunca explorou – eu o segui.

Como pude ter pré-conceito a respeito daquele Lápis? Como? Porque temos este comportamento diante do inusitado, será o hábito? Nos fechamos por medo do que não conhecemos? Ou, não nos sentimos preparados para explorar o novo? Hoje entendo que são estas questões de fato que tenho que entender e talvez me libertar. Ele não era feio, parecia somente fora do contexto que idealizará. O percurso das coisas que devem ocorrer dentro de uma certa normalidade, mas não é assim que se dá.

Senti-me estranho quando tive que paga-lo. Não se compra um amigo, sim um amigo, nos minutos em que estive naquela mesa, ele já se apresentara como algo que não poderia me separar. Coloquei-o junto ao meu peito; não me importei da forma que ocupava meu bolso, já o conhecia, o que importava era o meu julgamento, que possamos juntos despertar o interesse dos mais preconceituosos. Andávamos como dois amigos abraçados em um dia de chuva, bem juntinhos debaixo do guarda-chuva, não percebendo a multidão em nossa volta. A cumplicidade e união de um amigo: dádiva dos deuses!

Hoje tenho um caderno-com-folhas-brancas-sem-pauta, ele me faz percorrer mundos jamais explorados, esta sempre no centro, quando começa a se movimentar tenho somente que segui-lo e o faço ansioso para sentir o que ele tem a me escrever. Ensinando-me a metalinguagem da escrita, seguro-o com vigor, ele não se altera, suporta.

Lembro-me e guardei a primeira frase que me escreveu com sua advertência: “dizem que somos responsáveis por aquilo que cativamos, a responsabilidade se isenta para aqueles que cativam com o coração, o desejo destes é para o melhor; a relação é livre, sem obrigação, sem deveres, somente o Bem-Estar predomina, a harmonia daqueles que confiam e se gostam.”; assim é o meu Lápis-Tosco. Cativou-me. Deixa as entrelinhas com o justo espaço.

Os instantes são eternizados, enquanto desliza. Sonho, fico leve, me provoca o suspiro. Me liberta daquilo que não permitem que eu diga; que não consigo digerir. Me alivia, revigora, transforma.


Ele escreve em preto no caderno-com-folhas-brancas-sem-pauta, mas com ele meu mundo se tornou mais colorido. Meu Lápis-Tosco.



by José Rubens Salles Toledo