sábado, 19 de dezembro de 2009

O Barato do Corredor

Tenho algo a confessar: sou um viciado!

É isso mesmo v i c i a d o !!!

E se tudo correr bem volto para a produção do meu coquetel preferido, vou explicar como: ele é constituído de três ingredientes principais, ou seja, de Endorfina, Serotonina e Adrenalina.

Para produzir este coquetel tenho que literalmente suar a camisa, não é para qualquer um, lamentavelmente pode soar com uma certa petulância, mas é só para os persistentes, para os guerreiros – desculpe a falta de modéstia – mas é para aqueles que são disciplinados, perseverantes, tenazes, enfim, para os Corredores de Rua.

Claro que se vacilar, é um desespero só, pois, quando desiste de correr por algum deslize, a pena é terrível: tem que começar tudo de novo; 'desceu a montanha'? Sinto muito, tem que subir cada etapa novamente, não tem atalho, castigo daqueles que estavam quase no topo e desistiram.

O condicionamento perde-se de forma desproporcional; deixou de correr uma semana? Comece de onde estava a um mes atrás. Não corre a dois meses? Comece com o treino de seis meses. Parou a um ano? Comece tudo de novo, não tem choro. Como mencionei: é desproporcional.

Mas vamos voltar ao coquetel: o Barato do Corredor. Ele é constituído como mencionei: da Endorfina, cujo termo consiste na junção das palavras "endo" (interno) e "morfina" (analgésico), significando que é uma substância com propriedades da morfina produzida internamente pelo organismo, está associada à melhora da memória, aumento da resistência e disposição física e mental, ajuda o nosso sistema imunológico, diminui as dores e retarda o envelhecimento.

A Serotonina participa do controle do humor, comportamentos emocionais e ciclo do sono–vigília, têm efeito analgésico, está relacionada com a termoregulação, fome, controle da respiração e pressão sangüínea e por ultimo a Adrenalina, que provoca um grande aumento nos batimentos cardíacos e eleva as artérias, fazendo com que o sangue chegue mais rapidamente aos órgãos mais importantes como o cérebro e o coração. Tem mais substâncias, só que estas tres são as mais, mais.

Junto com a produção deste coquetel tem um ingrediente que não é um hormônio, é algo de uma dimensão enorme, é a vontade de poder, que impulsionada por uma força interna nos move, fez com que determinasse para 2010: todas as provas de 10 km, Meia Maratona e a São Silvestre, ou seja, vou entrar em forma novamente, começo a escalada curtindo o Barato do Corredor.





Virei a pagina...












by José Rubens Salles Toledo

Boa Sorte... até...

É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará

Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz

Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Desleais

That?s it
There is no way
It's over, Good luck

I have nothing left to say
It?s only words
And what l feel
Won?t change

Tudo o que quer me dar /Everything you want to give me
É demais / It's too much
É pesado / It's heavy
Não há paz / There is no peace

Tudo o que quer de mim / All you want from me
Irreais/ isn't real
Expectativas / Expectations
Desleais

Mesmo, se segure
Quero que se cure
Dessa pessoa
Que o aconselha

Há um desencontro
Veja por esse ponto
Há tantas pessoas especiais

Now even if you hold yourself
I want you to get cured
From this person
Who poisoned you

There is a disconnection
See through this point of view
There are so many special people in the world
So many special people in the world in the world
All you want
All you want

Tudo o que quer me dar /Everything you want to give me
É demais / It's too much
É pesado / It's heavy

Boa Sorte / Good Luck (Vanessa da Mata)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Lápis.

As arvores do jardim interno estavam bem próximas das janelas. Por entre as sendas de suas copas, os raios do sol juntamente com o sopro da manhã, iluminavam todo o nosso interior. Os elementos naturais que transpunham aquela espécie de portal exigiam uma certa sensibilidade para percebe-los.

O dia iniciava como todos os outros, a sala de aula aos poucos era preenchida com seus ocupantes diários, cada um se posicionando como de costume. Mas algo estava para acontecer de forma significativa ao meu lado. Aquele colega que pouco recebia atenção, começou um pequeno ritual: abriu sua mochila e tirou seu caderno de folhas brancas, depois seu estojo, com todo cuidado guardou o restante de suas coisas embaixo de sua carteira, se voltou para o estojo, de forma organizada, tirou o apontador, o estilete e o Lápis.

Aquele Lápis; me surpreendi, parecia um lápis de pedreiro, era rústico, parecia desajeitado, era grande, com uma ponta larga que certamente não facilitava a escrita, com certeza após alguns minutos segurando-o qualquer um se cansaria, rústico, Tosco. Deveria ser manuseado somente por pessoas acostumadas a talhadeira e marreta.

Olhei para o colega e fiquei me questionando: o que leva uma pessoa a ter um Lápis como aquele? Com tantas opções de modelos de canetas e lapiseiras, elegeu justamente algo tão Tosco, como pode?

Sua mesa estava organizada, estilete do lado da borracha na parte superior e o caderno-com-folhas-brancas-sem-pauta - brancas como a neve -, no centro da carteira. Parecia estar munido para registrar qualquer coisa, dava a impressão que era alto-suficiente para não deixar nada, absolutamente nada passar sem o devido registro.

Como não poderia deixar de ser, estes acontecimentos (que nos detemos com espanto), parecerem sempre fazer parte de um sistema que não temos controle, tive por força das circunstancias que alterar o meu caminho de volta para casa, e eis que passei em frente de uma loja especializada em artigos de artes visuais. Algo gritou para mim, quando me voltei ele estava no canto inferior da vitrine, era o Lápis. Novamente me chama a atenção.

Não me lembro de ter entrado na loja e nem muito menos de como cheguei até aquela mesa com uma folha branca em minha frente, aguardando o vendedor traze-lo.

Agora ele estava sobre a mesa dentro de uma caixa, parecia ter vida própria, o Tosco, o Lápis-Tosco.

Mal pude acreditar quando o tirei da caixa, era mais leve que minha lapiseira, praticamente reclinou-se em minha mão, antes de libera-lo na folha branca, admirei sua presença, sua força, sua energia, parecia ter personalidade própria, de fato era autentico.

Ele deslizou na folha branca, seu risco era preciso, fino, na medida que toda a escrita deve ter, era inspirador, macio, ele não parava na folha branca, estava à vontade em seu território e me convidava incessantemente a acompanha-lo, parecia me dizer – não tenha medo vou leva-lo a lugares que nunca explorou – eu o segui.

Como pude ter pré-conceito a respeito daquele Lápis? Como? Porque temos este comportamento diante do inusitado, será o hábito? Nos fechamos por medo do que não conhecemos? Ou, não nos sentimos preparados para explorar o novo? Hoje entendo que são estas questões de fato que tenho que entender e talvez me libertar. Ele não era feio, parecia somente fora do contexto que idealizará. O percurso das coisas que devem ocorrer dentro de uma certa normalidade, mas não é assim que se dá.

Senti-me estranho quando tive que paga-lo. Não se compra um amigo, sim um amigo, nos minutos em que estive naquela mesa, ele já se apresentara como algo que não poderia me separar. Coloquei-o junto ao meu peito; não me importei da forma que ocupava meu bolso, já o conhecia, o que importava era o meu julgamento, que possamos juntos despertar o interesse dos mais preconceituosos. Andávamos como dois amigos abraçados em um dia de chuva, bem juntinhos debaixo do guarda-chuva, não percebendo a multidão em nossa volta. A cumplicidade e união de um amigo: dádiva dos deuses!

Hoje tenho um caderno-com-folhas-brancas-sem-pauta, ele me faz percorrer mundos jamais explorados, esta sempre no centro, quando começa a se movimentar tenho somente que segui-lo e o faço ansioso para sentir o que ele tem a me escrever. Ensinando-me a metalinguagem da escrita, seguro-o com vigor, ele não se altera, suporta.

Lembro-me e guardei a primeira frase que me escreveu com sua advertência: “dizem que somos responsáveis por aquilo que cativamos, a responsabilidade se isenta para aqueles que cativam com o coração, o desejo destes é para o melhor; a relação é livre, sem obrigação, sem deveres, somente o Bem-Estar predomina, a harmonia daqueles que confiam e se gostam.”; assim é o meu Lápis-Tosco. Cativou-me. Deixa as entrelinhas com o justo espaço.

Os instantes são eternizados, enquanto desliza. Sonho, fico leve, me provoca o suspiro. Me liberta daquilo que não permitem que eu diga; que não consigo digerir. Me alivia, revigora, transforma.


Ele escreve em preto no caderno-com-folhas-brancas-sem-pauta, mas com ele meu mundo se tornou mais colorido. Meu Lápis-Tosco.



by José Rubens Salles Toledo

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Beijo

No inicio estava só. A praça era minha, era o destaque no frontão do saber, seu legitimo representante: “o intelectual”, aquele que domina e age pela razão.

Não sei como aconteceu, acho que foi naquele bucólico entardecer, o sol estava se pondo, mas não se mostrava apressado, creio que tentava prorrogar ao máximo sua partida. Os pássaros estavam em festa, anunciavam o jubilo de uma tarde única. Tudo agradava: os cruzamentos que circundavam a nossa praça pareciam mais harmoniosos; as arvores conversavam entre si, animadas pela brisa que as provocava, os prédios formavam de nosso cantinho um vale intimo.

Era um final de tarde diferente, havia um silencio com nuances melodiosas, parecia que todos se moviam com lentidão, um sossego, uma paz tomava conta daquela praça, jamais houvera um momento como este.

Estava distraído quando ele apareceu, era alto, esguio, impávido, seu semblante era terno, calmo, inspirava confiança, parecia se prender no horizonte como se esperasse um grande acontecimento, não se mostrava ansioso, esperava.

Não me lembro de onde ela surgiu, hoje penso que ela foi transportada do Olímpio para este lugar. Seu rosto angelical, olhos e cabelos negros, lábios convidativos, de estatura pequena e delicada, quanta docilidade, quanta graça. Como era Bela!

Os olhos dele faiscavam, os dela se detinham somente nele, seus passos eram cadenciados, um em direção ao outro, uma dança de aproximação. Ficaram parados por um breve instante, agiam como se fossem únicos. Nada, é o que estava em volta deles.

Ele avançou, passou sua mão por seus cabelos, de forma suave deslizou pelo seu rosto, ela inclinou-se; com o outro braço tomou-a pela cintura, não resistiu, seus braços o envolveram, premeditava cada gesto e de forma delicada aninhava-se cada vez mais. Tal como seus dedos sentiram a maciez de sua pele, agora era sua face que deslizava por seu rosto.

Afastou-se, querendo declamar com o olhar a poesia dos que deliram; declamou.

Ela entregou-se; porque o coração feminino bate mais forte?

De forma meiga acomodou-a em seus braços. Deslizou os seus lábios por sua face, pequenos beijos. O primeiro em sua testa, lembrou a ternura, o seguinte foi em seus olhos, convidando-a que os fechasse, contemplou-a, até por fim se aproximar de seus lábios. Estavam cerrados. Como se quisesse decifrar a senha para a conquista deslizou os seus por entre os dela, até que se entreabriram para não mais fechar.

Ela se aconchegou mais perto de seu peito. E assim ficaram em um eterno beijo, fazem parte daquele momento sublime que somente os amantes conhecem.

Estão despidos do tempo.

Somente eles.

Só eles.






Eu?

De expectador passei a condenado. Sou testemunha de duas almas que se encontraram e formaram um só corpo, um só espírito, um só ser, Um.















by José Rubens Salles Toledo

sábado, 5 de setembro de 2009

As alturas.

Reinava um silêncio quase que absoluto na sala, todos estavam apreensivos por ter que enfrentar aquela aula, a fama do Mestre não era das melhores, somente uma minoria angustiou uma experiência de aula com ele, no fundo sabiam que teriam que tolerar mais um semestre. Não tardou para que as manifestações começassem.

- Alguém pode me explicar de forma detalhada o porque temos que nos submeter a este tipo de situação?
- Calma! Você esta se alterando novamente, vamos saber o motivo quando começar. – Ponderou seu colega ao lado sem se voltar a ele. Estava cansado daquelas manifestações, por mais que tentasse não conseguia se render a tais determinações.
- Calma? Que calma? Eu sou um Sabiá você um Pintassilgo, não temos que ter aula com o Urubu, eles forçaram esta disciplina para nós, o ele que ele pode nos ensinar? A como destrinchar uma carcaça?
- A Dona Coruja acha que temos que ter diversos representantes do saber, quem você acha que é, para julgar o que é bom ou ruim para nós? Sou um Rouxinol que veio de longe e não vejo problema algum, o Pintassilgo tem razão, tenha calma, espere para ver.
- Não estou julgando ninguém. Quero uma simples explicação se a Dona Coruja determinou, é porque existe uma razão e é isso que quero saber, talvez aqueles que não sabem cantar se divirtam com esta aula, para eles é indiferente, não vão cantar mesmo.
- Nossa!!! Como você esta ácido o que foi comeu quando acordou? O Rouxinol, explicou que devemos ter uma boa formação e se determinaram esta disciplina é porque é necessária.

Não seria fácil para eles no fundo todos sabiam que o Sabiá tinha razão, com exceção do Pica-Pau, a maioria tinha a musica como meio de vida, se dedicavam a ela, e quando procuraram aquele local era para se aperfeiçoarem.

O sinal. A qualquer momento iria começar a aula. Um minuto, cinco minutos, dez minutos, estava atrasado, mal pressagio, ninguém se atrasa, as aulas sempre começam no horário, mas de repente surge uma figura imponente, o sol desaparece, surge uma longa sombra, arqueado, olhos profundos habituados a localizar a presa, anda de forma cambaleante, segura uma parafernália de coisas sem valor. Como se estivesse sozinho, começa a balbuciar:

- Quando comecei a voar o que importava era as alturas, onde o silencio reina e propicia a visão do todo. O grande mestre das alturas já identificava esta magnitude do poder imanente de voar nas alturas. O Grande Condor-da-Califórnia, ao qual tive o privilégio de ser o único Urubu como discípulo, complementou o meu vasto saber sobre as correntes que nos possibilitam a alçar vôos alem do imaginável. Nada mais importa, somente as alturas se justificam por si. – Fala só para si, olhava para o alto, não percebeu o tédio que estava causando, se achava o máximo, não poderia haver nada mais nobre que dominar as alturas, e continuou. – Detectar e explorar as correntes áreas, é, e deve sempre ser o objetivo daqueles que tem asas.
Lembro-me de quando contornei todo o nosso vasto território como único representante capaz de assimilar todo o conhecimento pelo Grande Condor-da-Califórnia, da chegada vitoriosa e aclamada pelos Abutres-do-velho-mundo. Que apoteose. Montei um seminário e exigi a presença de todos que compartilhavam a importância e magnitude das alturas, os desfiladeiros, os precipícios e os vales. Confesso a vocês que estou um tanto quanto arrependido desta iniciativa, pois sou aclamado a todo instante para proferir o meu inesgotável saber e isto tem me privado de outras pesquisas que estou certo será outra revolução no saber. Principalmente nas técnicas do “mergulho aéreo vertical em elipse”, quando estive com o Grande Abutre-Real em Torgos, percebi que nem todo o ensinamento para esta nova técnica de mergulho esta divulgada, creio inclusive que levaremos anos e mais anos até que se tenha uma idéia verdadeira da esplendorosa majestade desta arte do mergulho.

Não era mais possível tolerar aquela situação o Sabiá estava pronto para manifestar-se, sentia falta de ar, até que percebeu o momento de interferir naquele discurso sem propósito, o Urubu dera uma pausa para se refazer do que ele achava uma definição perfeita sobre o vôo, mas quando ia se pronunciar, uma frase surgiu do fundo, de forma contundente, firme sem margens para equívocos, foi direto.

- Sr. Urubu! Estas definições que nos traz, não seria em ultima analise uma técnica para a formação de um bom predador que necessita das alturas para que possa abranger o maior campo de sua caçada? Em que este conhecimento nos aprimora no canto?

O Sabiá não acreditou no que estava ouvindo, durante todo o tempo pensou estar sozinho naquela classe, pensava que somente ele percebia o desproposito daquele tipo tema. Será que tinha ouvido direito, será que não estava de fato sozinho? E agora o que faria? Não pensava em uma confrontação tão explicita, alias percebia que se não fosse esta interferência poderia ter se dado mal. Somente agora pode perceber a nobreza do Uirapuru, ele também não aceitava esta aula, ficou em silencio, enquanto não tivesse certeza do teor da matéria não iria se manifestar, optou para o campo da troca de idéias, queria no fundo atestar se suas impressões estavam certas. Somente colocando-se poderia constar se a aula teria ou não sentido para aqueles que queriam aprimorar-se. O Urubu foi pego de surpresa.

- Somente no curso de minhas aulas, poderão verificar que existe uma arte implícita no alçar vôo, somente aqueles que não percebem ou experienciaram a magnitude das alturas é que tem dificuldade de acompanhar a riqueza da imensidão do horizonte, do exercício de sentir o ar rarefeito que promove o desenvolvimento do pulmão, com que certamente e logicamente melhora o canto.

O Sabiá não se conteve:

- Psiu, Pintassilgo! Ei!
- Que foi? Fique quieto!
- Meu! Você entendeu alguma coisa! O cara ta viajando!
- Sabiá! Fica quieto, pelo jeito não é só você que esta a fim de detonar esta aula.
- Eu não quero detonar porcaria nenhuma. Eu só não…
- Quieto, se não vai sobrar para nós, aproveita e presta atenção, certamente você vai apreender alguma coisa.

Era notório que o Urubu estava irritado, mas como se sentisse à vontade no confronto, resolveu mudar o curso da aula, decidiu de forma contundente a atacar o Grande Curió.

- Muitos acham que o Grande Curió tem o domínio das alturas, mas não passa de um pequeno pássaro que se restringe a cantar de forma empertigada, não vê a importância das alturas somente o canto é a sua limitação.

O Pintassilgo adivinhando o pensamento do Sabia, voltou-se para ele, encontraram-se no olhar o Pintassilgo foi mais rápido.

- Não quero ouvir nada. Entendeu?
- Entendi o que? Que você não quer ouvir nada ou que eu não entendi o que este mentecapto falou?

O Pintassilgo rendeu-se.

- Você não existe. Eu também não entendi nada. Ele esta atacando do nada o Grande Curió. Este cara tem problemas?
- É isso que estou tentando por na sua cabeça! – O Sabiá mal podia se conter, tamanha a sua fúria.
- Calma! Senão o Urubu nos ouve…
- Calma nada; estou ficando cheio desta sua passividade… - Foi nesse momento que de forma tão inesperada como a anterior, Uirapuru voltou a se manifestar. O silêncio reinou na sala, ele era o único, preencheu toda a classe, percebeu-se que naquele momento que ele era o mais alto representante daqueles que não tinham coragem de afrontar o Urubu, ficou-se evidenciado o insulto quando atacou o Grande Curió.
- O Sr. quando afirma que o Grande Curió é voltado somente para o canto, é uma posição sua ou do Condor-da-Califórnia? Pois, até onde eu sei, o Grande Curió alem de cantar alça o seu vôo acima dos Andes.
- Quando tiver que se manifestar em minha aula tem que pedir permissão e somente apos minha deliberação é que será permitida qualquer tipo de pergunta.
- Por favor, queira me desculpar. – O Uirapuru se colou de forma respeitosa, olhava para o Urubu como um aluno deve olhar a um Mestre, estava arrependido de não ter solicitado a permissão, e não se contendo:
- Perdão, creio que não fui respeitoso.

Pronto. Foi o suficiente para a classe perceber que não haveria qualquer possibilidade de troca de conhecimento, não seriam suscitados à alegria, não poderiam vibrar, ou seja não haveria canto. O Urubu percebeu sua desvantagem, ele exagerou, estava ali no contexto do canto e tinha que resgatar de alguma forma.

- Sou eu que te peço desculpas, deveria ter mencionado as regras de comportamento em minha aula. Antes de pronunciar algo: peça permissão. – Não adiantou nada o silencio na classe era sepulcral. E continuou como se nada tivesse acontecido:
- O Grande Curió não conhece as alturas vive somente do canto.

Como se uma nuvem que estava encobrindo o céu passasse, o sinal tocou finalizando aquela tenebrosa aula. Quase todos saíram imediatamente. Apenas o Rouxinol ficou, contemplava a serenidade do Uirapuru guardando suas coisas, tinha certeza que ele não mais o veria naquela sala de aula. Aproximou-se timidamente, querendo anima-lo.

- Gostei de suas observações, mas não deveria se colocar tão contrariamente às considerações do Urubu.
- Eu não estou contrário a elas, o que me incomoda e a forma como ele as coloca.
- Mas é o jeito dele.
- Lembra do João-de-Barro quando nos apresentou como construía sua casa, que utilizava a proporcionalidade representada pelo numero 1,618….como “ o numero áureo”, a chave matemática da harmonia universal, o regulador das espirais da natureza, do desenho de sua casa, das folhas, das ramificações de arbustos e arvores, das conchas marítimas, ou seja de tudo aquilo que estamos convivendo a todo instante?
- Lembro, o Sabiá disse que não via sentido em apreender matemática.
- A matemática é uma das formas de percebermos a harmonia na criação. A figura do Tetráktis; o Um (.), depois o Dois (..), Três (…) e finalmente o 4 (….), sobrepondo todos os pontos aos quais os números representam forma o Triangulo, e a somatória dos pontos é Dez o Numero Perfeito. Suas proporções entre outras, revelam os intervalos das “oitavas musicais”.
O João-de-Barro mostrou que ha musicalidade em tudo. É nisto que acredito, estou sempre no cume das copas em noites sem o luar e ouço o canto das estrelas, o céu coberto com pontos cintilantes que me arrebatam o peito. Sinto dificuldade de respirar tamanha é a beleza e a sensação do Todo que invade meu espírito.
- Fazemos parte de algo maior do que temos condição de compreender.
- Isso Rouxinol, é exatamente isso!
- Também fico a noite no alto das copas, e imagino se pode existir algo superior a esta beleza toda.
- O Bem esta acima de tudo. – Nesta hora o Uirapuru inclina sua cabeça para baixo como se algo pesasse em sua mente.
- O que foi Uirapuru?
- Nada.
- Por favor, não me deixe sem saber o que se passa com você.
- Todos os Mestres deveriam passar seu conhecimento seja ele qual for permeado de Amor, é assim que o Bem se manifesta na criação. Nós estamos aqui para nos aperfeiçoarmos, a vibração e harmonia são fundamentais para nossa constituição.
- Creio que você esta no Caminho, sei que encontrará nesta sua aflição um ponto em que possa se apoiar. – O Rouxinol não tinha o que dizer, mas não queria deixa-lo sem um incentivo. Despediu-se e partiu.

Perto de onde eles estavam, Cravina estava observando-os, posicionou de forma discreta perto dos dois, não deixou de ouvir o debate de seus amigos. Antes que o Uirapuru saísse ela se aproximou e com sua suavidade peculiar exclamou:

- Eu sei o que você vai fazer!
- Você sabe Cravina?
- Sei. Eu vou continuar assistindo as aulas, que o Urubu não é agradável eu já sabia, ele se acha o máximo. Mas tenho interesse em tudo que trata sobre alturas.
- Eu também.
- Então?
- Eu não gostaria de discutir isto com você. Não acho justo, você esta interessada nesta aula e minha posição poderá influencia-la, não quero que isto aconteça.
- Mas…
- Olha. Você não deve tomar o que sinto, somos amigos, já passamos por diversas situações aqui, mas você deve seguir o seu coração e não o meu.
- Isso não é justo você estava argumentando com o Rouxinol e comigo esta se esquivando.
- O Rouxinol não estava buscando motivos para deixar a aula, você esta.
- Eu deixar a aula? Que absurdo!
- Pronto. Agora vamos começar a discussão.
- Desculpe.
- Não se desculpe. Vamos deixar as coisas como estão.


No fundo ela sabia que as aulas não seriam a mesma, o grupo formava uma unidade. Bastava um vibrar para que todos começassem, sem o Uirapuru corria-se o risco da aula se tornar um tédio, onde o Mestre fazia de conta que ensinava e os alunos de que apreendiam. Mas ela não iria desistir facilmente, antes que ele pudesse sair, proferiu:

- E se fosse a Águia e não o Urubu?
- O que é que tem?
- Se em vez do Urubu tivéssemos aula com a Águia sobre as alturas e não o Urubu.
- Seria ótimo, ela alem de conhecer as alturas, canta. Mas não é o caso.
- Você faz uma idéia do porque? – Ela não resistia provocaria-o até o limite.
- Por que há política, por que nos bastidores tem mais coisa do que possa supor a nossa vã cantoria.
- E você não vai fazer nada?
- Vou. Vou para minha arvore.

Ela não ia deixar as coisa assim, Uirapuru não teve tempo de movimentar-se, quando ela disparou:

- É mais fácil fugir do que enfrentar e transformar as situações constrangedoras em aprimoramento. Você não esta pensando em seus colegas que terão o tédio desta aula. Poderia pelo menos ficar e provocar a atenção daqueles que decidem em ter Mestres como este Urubu. Mas não, você prefere ficar no alto da copas contemplando as estrelas, enquanto aqui embaixo temos que nos defender sozinhos.


by José Rubens Salles Toledo

domingo, 30 de agosto de 2009

Ó Ideal,

que estás no meu céu interior,
verdade viva
que faz minha alma
imortal,
para que tua tendência
evolutiva
seja realizada,
para que teu nome
se afirme pelo trabalho,
para que tua revelação
seja manifestada a cada
espetáculo,
a cada espetáculo concede-me
a idéia criadora,
que assim como ela está
entendida no meu coração
seja entendida no meu corpo.
Ó Ideal,
preserva-me dos reflexos
da matéria,
que eu compreenda
que o sofrimento benfeitor
está na origem da minha
encarnação.
Livra-me do desespero
e que teu nome seja
santificado
pela minha coragem
na prova.
Ó Ideal,
faze com que eu
não diferencie
o fracasso do sucesso.
E perdoa a minha
dificuldade de comunicação,
assim como eu perdôo
os que não tem ouvidos
de ouvir
nem olhos de ver.
Ó Ideal,
destrói meu orgulho,
que poderia afastar-me
da tua luz-guia,
nutre meu devotamento,
porque és,
Ó Ideal,
a realeza, o equilíbrio, a força
da minha intuição


Plinio Marcos

O Fundão




Em boa parte de minha infância o meu “quintal” foi a praia, esta presente em mim o fascínio pelo mar, mas não era só o mar era o conjunto: o vento, o aroma, a areia, o sol, o colorido, o encontro das águas; são tantos os elementos entretanto todos se fundem no mar.

Ao chegar a praia e prestes a começar a corrida em sua direção, era inevitável ouvir a expressão: “não vai no fundão”, eu não escutava. Fundão? porque não fundo, porque não dizer: fique no rasinho? creio que era para atemorizar, “não vá no Fundão” pode parecer mais apavorante e talvez (pensava eu) era essa a idéia, quem sabe no susto ou no provocar o medo, o efeito seria o de coibir qualquer tipo de iniciativa. Esta frase parece que passava por mim, e se algo dela ficasse aderente, tinha como resultado justamente o contrario, eu queria sentir o fundão, parece que lá encontrava “a contradição pesado/leve como a mais misteriosa e mais ambígua de todas as contradições”, sentia o flutuar, o limite, a força do instinto de se alto preservar e perceber que um pouquinho mais e me veria em sérios apuros. Não demorava. Era o tempo suficiente para que o meu espírito se inundasse com o momento, guardo-os até hoje.



Eu e minha prancha, de madeira surrada de tanto retornar do Fundão ao rasinho, onde ficava em paz, largado, deixando as ondas decidirem a melhor posição, só eu e o mar, das ondas grandes às suaves, da calma, que cantam ao chegar na areia, e mal chegam retornam se encontrando com as que vem, quanta espuma, quantas bolinhas, o tempo parava, era eu e o mar, o Fundão agora era passado, ele ajudou o coração a bater mais forte para que pudesse contemplar a paz das ondinhas que chegavam na areia, e lá ficava porque este é lugar que elegi. Como eu gostava (e gosto) do Fundão!


by José Rubens Salles Toledo