O Beijo

No inicio estava só. A praça era minha, era o destaque no frontão do saber, seu legitimo representante: “o intelectual”, aquele que domina e age pela razão.

Não sei como aconteceu, acho que foi naquele bucólico entardecer, quando o sol se põe de forma lenta e discreto,  prorrogando ao máximo sua partida. Os pássaros estavam em festa, anunciavam o jubilo de mais uma tarde única. Tudo agradava: os cruzamentos que circundavam a nossa praça pareciam mais harmoniosos; as arvores conversavam entre si, animadas pela brisa que as provocava, os prédios formavam, entre o nosso cantinho, um vale intimo.

Era final de tarde, envolvida pelo silencio, marcando a pausa, todos se moviam com lentidão, imperava o sossego, a paz tomava conta daquela praça, jamais houvera um momento como este.

Estava distraído quando ele apareceu, era alto, esguio, impávido, seu semblante era terno, calmo, inspirava confiança, parecia se prender no horizonte como se esperasse o inicio de algo grandioso, pacientemente esperava.

Não me lembro bem de onde ela surgiu, hoje penso que foi transportada do Olímpio para este lugar. Seu rosto angelical, olhos e cabelos negros, lábios convidativos, de estatura pequena e delicada, quanta docilidade, quanta graça. Como era Bela!

Quando se perceberam, os seus olhos dele faiscavam, os dela se detinham somente nele, seus passos eram cadenciados, um em direção ao outro, por uma dança de aproximação. Por um breve instante ficaram se admirando, agiam como se fossem únicos. Nada, é o que estava em volta deles.

Ele avançou, passou sua mão por seus cabelos, de forma suave deslizou pelo seu rosto, ela inclinou-se; com o outro braço tomou-a pela cintura, não resistiu, seus braços o envolveram, premeditava cada gesto e de forma delicada aninhava-se cada vez mais. Tal como seus dedos sentiram a maciez de sua pele, agora era sua face que deslizava por seu rosto.

Afastou-se, querendo declamar com o olhar a poesia dos que deliram; declamou.


Ela entregou-se; porque o coração feminino bate mais forte?

De forma meiga acomodou-a em seus braços. Deslizou os seus lábios por sua face, pequenos beijos. O primeiro em sua testa, lembrou a ternura, o seguinte em seus olhos, convidando-a que os fechasse, contemplou-a, até por fim se aproximar de seus lábios. Estavam cerrados. Como se quisesse decifrar a senha para a conquista, se encontraram, até que se entreabriram para não mais fechar.
Ela se aconchegou mais perto de seu peito. E assim ficaram em seu eterno beijo. Agora juntos fazem parte daquele momento sublime que somente os amantes conhecem.

Estão despidos do tempo.

Somente eles.

Só eles.



Eu?



























Bom, de expectador passei a condenado. Sou testemunha do eterno encontro formando um só corpo, um só espírito, um só ser, Um.


















by José Rubens Salles Toledo

Comentários

Paulo Bertechini disse…
Maravilhoso, Rubens!
Você estava realmente inspirado, além de Peregrino, Filosofo, empreendedor é um grande Poeta! Parabéns!
Anônimo disse…
Fiquei encantada.
Sua descrição me fez viajar no enlevo de um beijo
Lindo!!!
Zélia
Anônimo disse…
passando para ler e reler... e este post, em especial, é capaz de re-valorar um lugar (a praça) e um tema (o beijo) que por tantas vezes tornamos triviais... obrigada por esse momento de importância ao que é importante!

;o)
Wisley Aguiar disse…
Rubens, meus parabéns. Este texto mexeu com meus sentidos, gostei bastante! Realmente você era outro esse dia, a inspiração veio como sabedoria, um espírito divino pousou sobre sua alma. Gostei do blog, felicidades!

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